" Há algumas flores do amor que abrem só depois de longa intimidade." Osho

Beijo da Escrita


Eu escrevo como quem beija.
Um beijo longo, demorado, carinhoso.
Um beijo desses de língua.
A língua se movimenta lentamente
e me permite um gosto
ao mesmo tempo do outro
e de mim mesma.

Do outro que me encontra
neste texto
e do que há em mim que permite o encontro.


Eu escrevo como quem vive.
Assim, simples,
fazendo um texto de vida,
na vida.
Às vezes, penso,
afinal, que texto é esse que eu produzo?
Que vida é essa agenciada
pelo sabor das palavras compartilhadas,
sussurradas, como um afago?


Quem é esse outro que me encontra
e quem sou esse eu mesma que se expressa,
que se entrega...
nesse delicioso beijo de língua?
Nesse movimento que, afinal,
eu mesma provoco?
O gosto vem do meu movimento mesmo
associado ao movimento do outro.


Quando escrevo, eu me inscrevo.
Fica também o meu gosto
no gosto da língua do outro.
E isso me remete a não querer parar de escrever.Nunca.





domingo, 4 de julho de 2010

Uma Poesia para Câncer

Memória - Cecilia Meireles


Minha família anda longe
contravos de circunstancias:
uns converteram-se em flores,
outros em pedra, água, líquen,
alguns, de tanta distância,
nem têm vestígios que indiquem
uma certa orientação.



Minha família anda longe,
- Na Terra, na Lua, em Marte -
uns dançando pelos ares,
outros perdidos no chão.

Tão longe, a minha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...
Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.
vejo lábios, vejo braços,
- por um momento, persigo-os;
de repente os mais exatos,
perdem a sua exatidão.
Se falo, nada responde.
Depois, tudo vira vento,
e nem o meu pensamento
pode compreender por onde
passaram nem onde estão.

Minha família anda longe.
Mas eu sei reconhecê-la:
um cílio dentro do Oceano...
um pulso sobre uma estrela,
uma ruga num caminho
caída como pulseira,
um joelho em cima da espuma,
um movimento sozinho
aparecido na poeira...
Mas tudo vai sem nenhuma
noção de destino humano,
de humana recordação.

Minha família anda longe.
reflete-se em minha vida,
mas não acontece nada:
por mais que eu esteja lembrada,
ela se faz de esquecida:
não há comunicação!
Uns são nuvem, outros lesma...
Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.



Murmuro para mim mesma:
"É tudo imaginação!"

Mas sei que tudo é memória...

O convite do mês é navegar pelos mares da emoção e, aos mais corajosos, um mergulho nas profundezas do sentimento. A diferença é tremenda: enquanto, nas emoções, a visão que temos é apenas das reações que as pessoas, objetos, situações provocam em nós: nos sentimentos, entendemos as causas das reações e podemos de quebra descobrir sentimentos que estavam latentes apenas. Somos convidados a remexer em nossas memórias, em nossas emoções e com elas percebermos o que sentimos e como sentimos. Não é nada fácil esse momento.

Confesso que, apesar de adorar a água e as sensações que em mim provoca, preciso de uma dosagem de força de vontade pra mergulhar nas sensações. O motivo é simples: aqui não podemos fingir; não dá pra racionalizar num primeiro momento, pois o medo paralisa. Câncer vem ensinar o mundo das emoções, sua instabilidade, flutuação, a todos nós mortais. Claro que como primeiro signo do elemento água e tendo ainda a incumbência de levar-nos a matriz de nossas emoções: a família, será de forma muitas vezes visceral, pois é um mergulho no útero das razões de emoções enraizadas em nós.



Talvez por isso muitos associem o inverno a situações sombrias, depressões. Prefiram o verão, o calor, a claridade. Entretanto, para aqueles que conseguem encontrar o equilíbrio no meio do caos emocional, conseguem respirar, soltar, esses atingem um outro estágio e deparam-se com o centro dos sentimentos. A nossa capacidade humana de sentir, de sentir a materialização do sentimento em si mesmo. Parece papo de doido? È, com certeza será para todos aqueles que racionalizam, que criaram uma crosta confortável de proteção ao sentir. No entanto, tenho certeza absoluta de que muitos compreendem o que falo, pois o sentimento ultrapassa essa razão. É algo que não conseguimos expressar em palavras, a razão não consegue alcançar, mas, uma vez vivido nunca mais será esquecido, pois é a razão da própria existência, é a poesia que nos mantém vivos. A única razão de nossa existência: o sentir. Experenciar na matéria o sentimento e suas conseqüências. Só desta maneira, poderemos compreender o outro, a natureza e acima de tudo respeitá-los e preservá-los.



Assim, permita-se nesse mês sentir suas próprias emoções, perceba onde elas levam você, vá até suas raízes emocionais, o que elas querem mostrar, que emoções você busca remontar e por que remonta. Enfim, viaje nesse mar de emoções existentes em você. E dessa viagem faça a poesia de sua memória. Boa viagem!

Máxima Canceriana: Lar, doce lar, não há lugar como meu lar!!!

CÂNCER
21 de junho a 22 de julho



"E, então Deus chamou Câncer...
"A ti Câncer, atribuo a tarefa de ensinar aos homens a emoção. Minha Idéia é que provoques neles risos e lágrimas, de modo que tudo o que eles vejam e sintam desenvolva uma plenitude desde dentro. Para isso, Eu te dou o Dom da Família, para que tua plenitude possa se multiplicar."
E Câncer voltou ao seu lugar."


Principal Característica: sentimento
Qualidades: empatia, sensibilidade
Defeitos: possessividade, apego ao passado, flutuabilidade
Elemento: Água
Qualidade: Cardeal
Polaridade: Receptivo
Planeta regente: Lua
Aqui nos deparamos com o elemento água, o grande aprendizado de nossas vidas, pois lidar com as emoções não é tarefa fácil como veremos nesse signo regido pela Lua. Câncer possui uma emocionalidade quase que irresistível e exige como principal tarefa de integração interior ou individuação a necessidade de resgatar a própria individualidade do regaço materno. Entretanto, nosso amigo terá que enfrentar a figura da Mãe Terrível para sair vitorioso. Há uma figura mitológica grega que parece representar mais de perto a Mãe Terrível que perpassa a vida de todo canceriano, seja homem ou mulher, a deusa Hera e o caranguejo que vivia no pântano da Hidra de Lerna, que nos remetem diretamente aos doze trabalhos de Hércules.

Enfrentar a Hidra, um monstro de muitas cabeças que habitava no pântano de Lerna, foi o segundo dos doze trabalhos que Hércules realizou, todos por inspiração direta de Hera, que o odiava mortalmente. Zeus se apaixonara por Alcmena, prometida de Anfitrião, rei de Tebas, e através dela resolvera dar a essa cidade grega um herói como jamais existira. Para isso, sabedor da fidelidade de Alcmena, “travestiu-se” de Anfitrião, que estava a guerrear, e teve com ela três noites de amor, engravidando-a de Hércules; a seguir, com o retorno do legítimo prometido e após ter se casado com ele, Alcmena engravidou de Íficles. Nasceram, assim, dois gêmeos.

Não feliz com isso, Zeus tramou a imortalidade de seu filho mortal preferido: adormecendo Hera, fez com que a criança sugasse o seio da deusa. A despeito de a deusa ter acordado e repelido Hércules, borrifando longe o próprio leite e dando origem, com isso, à Via Láctea, o menino tornara-se imortal. E isso, Hera nunca perdoou...

Lançou contra Hércules a maldição da raiva e da demência, e ele acabou por matar os próprios filhos e a esposa: a seguir, já lúcido, Hércules consultou o oráculo de Delfos sobre como expiar tão bárbaro crime, recebendo como resposta a servidão ao primo Euristeu. E este, por sua vez, sob o mando de Hera, deu-lhe como tarefa os doze trabalhos (dos quais se supunha não sairia vencedor), entre os quais o enfrentamento da Hidra de Lerna.

Na verdade, os doze trabalhos representam a longa série de tarefas que o Herói terá de executar a contento para, depois de todas, renascer um homem novo. ( Lembram do que Cristo falou: aquele que não nascer de novo...)

Simbolicamente, segundo o mitólogo francês Paul Diel: “as múltiplas cabeças do monstro de corpo de serpente configuram os vícios múltiplos, nos quais se prolonga o corpo da perversão, a vaidade. Vivendo num pântano, a Hidra é particularmente caracterizada como símbolo dos vícios banais. Enquanto o monstro viver, enquanto a vaidade não for dominada, as cabeças, símbolos dos vícios, renascerão, mesmo que por uma vitória passageira se consiga cortar uma ou outra. Para vencer o monstro, Hércules usa a espada, arma de combate espiritual, conjugada com o archote, que cauteriza as feridas, a fim de que, uma vez cortadas, as cabeças não possam mais renascer. O archote simboliza a purificação sublime.”

Acontece que – e aqui encontramos o nosso crustáceo – no pântano de Lerna habitava um imenso caranguejo, enviado por Hera, o investiu contra Hércules pelas costas (uma manobra canceriana característica) no momento mesmo em que ele enfrentava a Hidra, “pinçando-o” pelas ancas e pelos pés. O Herói conseguiu matá-lo e, em seguida, derrotar a Hidra.

O episódio nos mostra a raiva da matriarca contra a possibilidade de independência e identidade individual de sua criatura; daí a batalha pra livrar-se da mãe ser tão constante na vida dos cancerianos – uma batalha que sempre parece maior do que é realmente, uma vez que a figura materna representa, para o inconsciente mais profundo do canceriano, a unidade ourobórica toda-poderosa que detém os destinos de si mesma e de cada elemento da criação.

Na vida do canceriano (tanto homem quanto mulher), o pai está com freqüência ausente ( viagens, serviço, etc..) e a mãe é percebida como o único pólo de poder no lar, razão pela qual a criança mal consegue apropriar-se do em geral grande poder criativo paterno – para o menino isso é perigoso, pois a figura paterna fica ofuscada pelo animus gigantesco da mãe, na óptica da criança; mais ainda: não raro a mãe da menina canceriana disputa com ela a primazia pelo poder feminino no lar, obrigando-a a “ocultar-se de si mesma”.

Assim, essa vivência infantil e aquele padrão mítico emprestam à mãe uma dimensão que ela muitas vezes não possui, o que explica o “complexo materno” encontrado no canceriano (seja ele homem ou mulher): a cada nova relação vem à tona a busca do “útero materno”, a busca de quem “cuide” dele, com a manifestação de comportamentos infantilizados que se chocam contra a aparente liberdade realizadora da pessoa – ao fim e ao cabo, ela está em busca de libertar-se do pesado sentimento de isolamento e separatividade que representou a saída do útero, mas tentando sempre retornar a ele...

Muitas vezes esse padrão duplo – o monstro sendo enfrentado e o caranguejo desestabilizando por trás – é vivido projetivamente e encontramos a relação típica na qual o parceiro, ao mesmo tempo em que parece apoiar as tarefas de crescimento do canceriano, “sabota-o” pelas costas nos momentos mais difíceis. Ou vice-versa.

Entretanto, temos de nos aproximar também de outras figuras mitológicas para ampliar o entendimento do profundo substrato mítico de Câncer; para isso, devemos ver de perto o escaravelho sagrado egípcio e a deusa grega Tétis, deusa dos mares e oceanos, de onde toda a vida surgiu.

O escaravelho, que já ocupou o lugar do caranguejo neste signo do Zodíaco (assim como a Águia fora o símbolo mais antigo do signo de Escorpião), era considerado símbolo da perpetuidade da vida pelos egípcios, dado o fato aparente de “renascer” de uma bolinha de terra. Na verdade, eram pequenas bolas de terra e esterco, nas quais o inseto depositava suas larvas, que cresciam com o calor da fermentação do esterco. O fato de o escaravelho rolar a bola de um lado para outro, “após o que a vida surgia”, implicou a comparação com a passagem do círculo solar de um lado para o outro do horizonte sua imediata associação com o deus Sol egípcio, “pai” de toda criação.

A outra figura mitológica, Tétis, parece explicar diretamente a capacidade canceriana muito comumente encontrada no canceriano de representar as imagens do inconsciente coletivo de maneira criativa. A deusa, que havia recebido a profecia de que um filho seu seria muito maior do que qualquer deus, foi impedida por Zeus de desposar uma divindade: ela só poderia ter como esposo um mortal, homem comum. Em outras palavras, somente depois de ter aprendido a canalizar através do Ego seus imensos poderes de criação e transformação, próprios de seu interior inconsciente oceânico, é que o canceriano se realizara, Porque Tétis nos aproxima mais uma vez da Mãe Terrível.

De Peleu, Tétis concebeu Aquiles, o grande herói da Guerra de Tróia. Para impedir que Aquiles se expusesse a essa guerra, Tétis vestiu-o de mulher, pois havia a profecia de que Aquiles teria uma vida curta e cheia de glórias ou uma vida longa mas inglória: Tétis, Mãe Terrível, preferiu a segunda hipótese. E, assim, às vezes, o canceriano prefere ficar no colo da mãe em vez de libertar seu imenso potencial criativo; outras vezes, fica à espera de que alguém venha realizar projetivamente o seu próprio potencial.

Por isso, a separação da mãe é sempre um enorme rito de passagem na vida do canceriano, marcando definitivamente seu segundo nascimento e, talvez, o primeiro de sua real individualidade. Mas enquanto não for feito, assim como Aquiles o fez e ganhou imortalidade ao morrer na batalha decisiva da Guerra de Tróia, o canceriano continua a buscar o útero do qual foi separado – mantendo-se impedido, dessa forma, de transcender essa busca e aproximar-se dos dons efetivos de criatividade que herdou do Pai Divino.

Este signo domina a quarta casa do mandala zodiacal, que representa o fundo do céu, ou como gosto de chamar nossa âncora – a bagagem dessa e de outras vidas, ali estão as informações referentes a nós. Também essa casa remete-nos à parte mais obscura de nós mesmos. Muitas das informações que ali estão fazemos questão de esconder, fugir. Situações, ações que forjaram nossa criança, tornando-a mimada, abandonada, rejeitada, violentada, etc. Visitar essas informações, lembranças é olhar para nossas feridas, nossas chagas que determinam em nosso presente as nossas ações, reações. Entretanto, passar por esses escombros leva-nos a encontrar o valioso em nós, que está perdido lá, esperando pelo resgate. E o valioso, o mais importante é resgatar nossa capacidade de sentir, de acreditar, buscar nossa inocência perdida para a partir dela reconstruir nossa história. Junto com ela estará a nossa verdadeira capacidade de sentir tudo. É uma jornada e tanto. Cheia de emoções, de sustos, suspiros, choros. Ao final dessa aventura, encontraremos o pote de ouro: nossa inocência!

sábado, 22 de maio de 2010

Gêmeos - Ora no Céu, ora no inferno!

GÊMEOS
21 de maio a 20 de junho


E, então Deus chamou Gêmeos...
"A ti, Gêmeos, Eu dou as perguntas sem respostas, para que possas levar a todos um entendimento daquilo que o homem vê ao seu redor. Tu nunca saberás por que os homens falam ou escutam, mas em tua busca pela resposta encontrarás o Meu Dom reservado a ti: o Conhecimento."
E Gêmeos voltou ao seu lugar.



Principal Característica: movimento
Qualidades: adaptabilidade,versatilidade
Defeitos: racionalidade excessiva, falta de comprometimento
Elemento: Ar
Qualidade: Mutável
Polaridade: Ativo
Planeta regente: Mercúrio
Exílio: Júpiter
Exaltação: Plutão


O geminiano é aquela pessoa “ar-mental-mutável” que faz estagio na juventude por longo tempo, às vezes, a vida toda. Tem um frescor de adolescência vida a fora e, nesse modelo, baseia seu comportamento.
O mitologema “gêmeos” representa pólos de forças positiva e negativa combatendo-se, mutuamente de forma que o Bem vença – não através de meros embates externos, mas sim pelo embate dentro do próprio ser, cuja unidade o par de gêmeos representa.
O embate parece representar, na maior parte das vezes, a luta do ser contra a própria Sombra, a qual é composta pelos aspectos negados pelo próprio indivíduo: é o inimigo interno, nascido e vivido, conjuntamente, que nunca poderá ser completamente superado mas com o qual o indivíduo deverá combater sempre, pois é desse embate sem tréguas que surge o próprio crescimento da pessoa humana.
Esse signo traz o mito de Castor e Pólux. Zeus estava apaixonado por Leda, esposa de Tíndaro, para seduzi-la ele usou de um estratagema: se transformou em um cisne, já que ela estava grávida de Tíndaro e tinha se transformado em gansa para escapar dos assédios do deus do Olimpo. Resultado disso foi que Leda colocou dois ovos: de um nasceu Castor e Clitemnestra, crianças mortais, porque filhos do Rei de Esparta, Tíndaro, de outro, entretanto, nasceram Pólux e Helena, ambos filhos de Zeus e, por isso, imortais. Observe-se que em ambos os pares de irmãos temos uma parte mortal e uma imortal, além do tema central “irmãos de alma”.
Castor e Pólux eram muito diferentes, enquanto o primeiro era guerreiro, forte, impositivo e mortal, Pólux era músico, delicado, sensível e imortal. Ambos brigavam muito em função dessas diferenças, até que Castor,envolvido numa batalha contra dois outros gêmeos, sucumbiu e morreu. Pólux, coberto de dor e saudade, pede a seu pai Zeus que intercedesse junto a Hades para trazer seu irmão de volta, haja visto tratar-se de um mortal, ou que Hades aceitasse a vida do próprio Pólux em troca da de Castor. Castor havia morrido e a palavra de Hades era irrecorrível, além disso Pólux por ser imortal não poderia morrer...Mas um arranjo foi feito e os dois irmãos receberam autorização para viver um dia cada um, alternadamente, no reino de Hades e nos domínios de Zeus, a superfície da Terra: assim enquanto Castor estivesse vivo, Pólux desceria ao reino de Hades, invertendo-se as posições no dia seguinte.
Hummm... este é um dos mais belos mitos e de implicações múltiplas da mesma forma que os geminianos são multifacetados. O núcleo mítico descrito acima nos remete a uma vivência compulsiva geminiana de suas oposições: em sua fase “mortal” desce aos infernos e depara-se com sua Sombra, em contrapartida quando em sua fase “imortal” compartilha dos prazeres divinos. Isso significa tratar-se de um individuo que apresenta forte oscilação de humor, indo da depressão à euforia e desta à depressão novamente, de modo cíclico. Entenda-se cíclico, como de um dia ao outro – como no próprio mito, ou de um momento ao outro, no próprio dia. Da mesma forma, pode ter um comportamento elogiável num momento e em outro tem uma postura condenável pelas normas sociais vigentes. Segundo a observação popular é o “duas caras”, ou seja, hora comporta-se de um jeito, em outra de outro, conforme lhe convém.
Mas calma! Nada de condenar tão apressadamente nosso geminiano. Essa capacidade de estar ora no céu, ora no inferno pode e deve ser vista também de outra forma: a capacidade que a mente tem de capturar o divino quando em sua poção mais elevada e a de levar essa compreensão a nossa poção obscura, lembrando o portal da mente humana que, ao ser atravessado e compreendido, dá inicio ao mais importante processo de evolução – o principio do desenvolvimento da inteligência humana. Além é claro de uma outra característica geminiana muito peculiar: a curiosidade. O geminiano é um curioso full-time. Está sempre plugado nos canais de modernidade, comunicabilidade, cultura.
Para compreender mais essa natureza tão mutável, precisamos mencionar outro mito que trata do próprio regente do signo: Hermes, ou Mercúrio – para os romanos – e como ficou conhecido, um deus que apresenta as mesmas qualidades ambíguas. Para começar Hermes é fruto da união (e não, como em outras vezes, da sedução ou estupro de Zeus sobre uma mortal ou imortal) entre esse deus e a ninfa Maia (segundo algumas versões, a própria deusa Noite, a mais “profunda” das deusas olímpicas e representante das profundezas do inconsciente e das forças da Natureza), Hermes é o filho mais inteligente de Zeus!
Logo depois de nascido, foi enfeixado e amarrado num salgueiro (árvore sagrada, símbolo de imortalidade e fecundidade) demonstrando sua habilidade de “ligar e desligar” - como o faz o Pensamento -, desatou-se e mostrou sua verdadeira face: roubou parte do rebanho de seu irmão Apolo, atou folhas aos rabos dos animais – para que eles não deixassem rastros. Sacrificou doze dos animais aos deuses olímpicos. Eram apenas 11 deuses. Um animal era para si mesmo. O recém-nascido havia se promovido à condição de imortal! Apolo procura Zeus para queixar-se e este por sua vez interroga Hermes e o menino, afinal, prometeu que nunca mais mentiria... mas que nunca contaria toda a verdade!
Apolo, encantado pelos sons da lira e da flauta de Pã que Hermes havia criado, deu-lhe em troca um cajado de ouro e um rebanho: Hermes aceitou o “negócio”, mas, revelando-se já um bom negociante, pediu ainda lições de adivinhação – das quais Apolo era o deus por excelência. Desta forma, o caduceu passou a figurar entre seus atributos, bem como a arte divinatória, ambos necessários a tarefa de pastorear ou guiar os homens.
Não tinha um lugar a ele dedicado, portanto Hermes presidia as estradas, as fronteiras, as encruzilhadas. Mais tarde, foi alçado a psicopompo, acompanhante das almas ao Reino de Hades e sua esposa, Perséfone. Gerado em uma caverna, tinha pleno domínio das trevas, além do fato de ser condutor de homens e ter sandálias de ouro que lhe permitiam andar depressa.
Para o estudioso romeno de mitologia comparada e história das religiões Mircea Eliade, “ a astúcia de Hermes, a sua inteligência prática, a sua inventividade (...), o seu poder de tornar-se invisível e de viajar por toda parte em um piscar de olhos, já anunciam os prestígios da sabedoria, principalmente o domínio das ciências ocultas, que se tornarão mais tarde, na época helênica, as qualidades especificas desse deus. Já para outro estudioso de mitologia Walter Otto, “falta a Hermes dignidade”: ele se vale principalmente de astúcia e não de força, de “mágica” e não de heroísmo. Aqui vale lembrar outra versão do mito de Hermes, que conta ser ele irmão gêmeo de Afrodite, com o qual teve um filho, Eros: por essa versão, temos outra dimensão de Hermes, qual seja, a de manter ligadas (através de Eros) relações que tem tudo para manter-se separadas dadas as suas diferenças, ao mesmo tempo que certa paixão (Afrodite) por tal tipo de relações.
Jung identificou em Mercúrio o misterioso momento em que o inconsciente, às vezes destrutivo, outras vezes hábil, outras ainda terrível, mas sempre ambíguo e fértil, “prega peças” no ser humano; pois ser “embusteiro” era um dos principais atributos de Hermes, bem como ser “andrógino” (homem-mulher) double-face, visando levar o ser humano à descoberta da verdade, sempre oculta atrás das parcialidades do pensamento.
É um deus benéfico, interessado em síntese de opostos por comparação de diferenças e conflito entre elas; mas pode ser ao mesmo tempo um deus terrível, por sua facilidade de argumentação (que o geminiano utiliza para si e para conviver com os outros), através da apresentação da realidade travestida em ilusão conceitual (lembremos que a mãe desse deus é Maia – já ouvimos falar das ilusões dos véus de Maia!!)
Com tudo o que foi mostrado, dá para se ter uma pequena amostra do turbilhão que é a essência geminiana. E, claro, como este signo aparece na mandala astrológica de todos os nós é bem oportuno verificar onde está energia se manifesta. Importante estar com a mente bem aberta, olhos e ouvidos atentos para toda informação que chegar, afinal a percepção geminiana com certeza nos levará a transpor os limites de nossa ignorância! Cabe avisar que o caleidoscópio mental deste signo pode provocar enjôos aos mais desatentos.

“Tenha cuidado com o que você pensa,
pois sua vida é dirigida por seus pensamentos.”
Provérbios 4:23

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Aprender

“O caderno é uma metáfora da vida,Quando os erros cometidos eram demais, eu me recordo,
Que a nossa professora nos sugeria que a gente virasse a página.
Era um jeito interessante de descobrir a graça que há nos recomeços.
Ao virar a página, os erros cometidos deixavam de nos incomodar e a partir deles,
A gente seguia um pouco mais crescido.
O caderno nos ensina que erros não precisam ser fontes de castigos.
Erros podem ser fontes de virtudes!
Na vida é a mesma coisa, o erro tem que estar à serviço do aprendizado;
Ele não tem que ser fonte de culpas e vergonhas.
Nenhum ser humano pode ser verdadeiramente grande
sem que seja capaz de reconhecer os erros que cometeu na vida.
Uma coisa é a gente se arrepender do que fez! Outra coisa é a gente se sentir culpado.
Culpas nos paralisam. Arrependimentos não!
Eles nos lançam pra frente, nos ajudam a corrigir os erros cometidos.” (Fábio de Melo)

Há dias penso a respeito de como somos educados, como aprendemos, e como adquirimos nossos conhecimentos nas mais variadas áreas de nossos interesses e atuação. E, justamente, num desses dias o texto acima que se encontra na música O caderno, no cd Vida do Padre Fábio de Melo, veio parar em minhas mãos. Encantei-me com a simplicidade e com a veracidade do texto. Tão simples; tão profundo. Pena que essa simplicidade e ensinamento tão profundos nem sempre faça parte da forma como aprendemos. Entendem? Como ainda, em nossa fase adulta, escamoteamos nossos erros, os evitamos, nos desculpamos, não nos responsabilizamos, e principalmente temos medo, vergonha, culpa de enfrentarmos nossos sentimentos, nossas emoções frente aos nossos atos. É difícil crescer, emocionalmente em responsabilidade, quando evitamos o confronto mais simples: o com nosso eu idealizado!

A energia de Touro neste mês traz a possibilidade de trazer para a matéria, a concretização daquilo que desejamos. E, eu pessoalmente desejo que cada um de nós torne seu aprendizado mais leve, já que muitas vezes a lição a ser aprendida é pesada. Tornar algo leve depende do ponto de vista de onde olhamos a situação. Se nos sentirmos culpados, com vergonha, ou com medo certamente a lição não será vista na sua totalidade. E, nosso tempo está passando. Precisamos enfrentar com clareza nossas mazelas. E, não como crianças mimadas, ou amedrontadas. Discernir que o importante é o aprendizado. E cada um tem uma forma de aprender. Portanto, a vida nos trará situações dentro dessa nossa capacidade. Quantos de nós conseguimos entender um “não” da primeira vez que ele se apresenta? Quantos de nós conseguimos aceitar nossos erros e não fazer dramas em cima? Entendem: a simplicidade da vida exige de cada um que administre com muita maturidade suas situações. Essa é a lição. Certa vez li algo mais ou menos assim “o importante é o processo não o resultado”, pois é durante o processo que somos lapidados, modificados.

Devemos aproveitar a energia desse mês para nos colocar em sintonia com o que há de melhor em nós e permitir que essa energia traga até nós as lições necessárias para a lapidação de nosso ser. Sentir gratidão por que seja lá o que for que aparecer a nossa frente é o nosso quinhão. Não ter medo, não ter vergonha, nem sentir culpa do que quer que seja, pois somos o resultado de tudo que já passamos e vivemos. Temos no hoje a oportunidade do melhor presente: construir o nosso futuro. Mãos a obra!! Nas quedas leia a mensagem lá de cima. Força.... e Fé na jornada! A melhor lição está por vir.



A taça

A taça
Da jarra da minha existência, despeja-se a água que enche as taças de meus dias. O mineral líquido é sorvido naquelas que eu mesma escolho. Apesar da pureza da água independer da qualidade da taça, esta influencia sobremaneira no sabor daquela.
Embora o sol teimasse em brilhar, acordei com a sensação de água barrenta na boca. O gosto-cheiro-de-terra-molhada instalou-se em minha língua. Preencheu minhas rodovias internas. Desde o bom-dia até sonhe-com-os-anjos. Tudo tinha aquele gosto. Não é de minha natureza escamotear as sensações que vivencio. Entretanto, tentava disfarçar a água-barrenta que me invadia. Talvez por saber instintivamente que ela estivesse dentro de mim. É difícil aceitar a própria lama.
Decidi, influenciada por meu estado, mexer nos vasos. Comprar a terra boa. Forrei a mesa com jornal. Comecei o processo depurativo. Gosto desse tipo de tarefa. Artesanal. Esqueci dos compromissos e passei a dedicar-me às folhagens. Com cuidado, tirei a planta do primeiro vaso. Coloquei-o na mesa. Retirei a terra que a pouco a envolvia. Percebi a secura. Do corte no plástico, o aroma orgânico invadiu o ambiente. Feito café passado.
Depositei no vaso a nova terra. Ao pegá-la, notei a sua fofura. A sensação de mexê-la, fazer cuidadosamente o buraco para abrigar as raízes, trouxe-me um sentimento de alívio. Processo óbvio. Entretanto, meus pensamentos foram iluminados pela certeza de que aquela terra havia passado por um apodrecimento natural e inevitável.
Para tornar a terra fértil, cava-se um buraco; deposita-se nele o material orgânico. Esse é coberto por uma camada de terra. Com o tempo, o lixo orgânico apodrece. Em suas entranhas, a Mãe Terra o decompõe para dali algum tempo devolver-lhe a vida. A complexidade da equação ocorre fora do alcance dos olhos curiosos. No ventre da Mãe Terra. Naquele lugar assustador. Povoado pela escuridão. Nesse receptáculo de morte, engendra-se a vida.
Esta informação pareceu-me esclarecedora. O gosto de lama deveria fazer parte de meu processo de decomposição. Deparar-me, com os medos, com as carências, com a incapacidade, com os motes, com as raivas, com os sentimentos mesquinhos, assusta. No entanto, ao depositá-los em meu território sagrado depuro o meu ser.
Entro em contato com a aridez de meus temores. Com a enorme ausência de vida. Lambuzo-me com a podridão dos meus desejos. Nesse contato direto, sem preservativos, encontro os resquícios do monstro ferido, acuado. Aquele que me faz reagir por meios ilícitos. E, ele sangra o fel da rejeição. Expõe a ferida. Urra por regeneração. De seus gemidos, compreendo a ansiedade que assola a alma. Seus espasmos ecoam como soluços, impossível conter a avalanche de emoções que esse contato detona. A água percorre meu corpo. Jorra das vísceras desse animal ferido. Currado em seus princípios. Fico ali. Paralisada. Vejo em seu semblante os traços contorcidos de minhas emoções. Cristalizadas. Petrificadas. Exibe com ferocidade meus inconfessáveis complexos, medos, quereres, desejos ínfimos. Numa torrente avassaladora, reconheço-me em seu sentir. Percebe minha aceitabilidade. À luz da recepção, responde com um facho dourado de energia. Das lágrimas resulta o suspiro. E, dele o riso de interação. O monstro se foi. Restauro meu animal sagrado. Desse confronto, veio à força de minha sombra. A consciência da construção obsoleta e defensiva de estruturas contra a vida. Os padrões pelos quais me pautei. As verdades em que acreditei, os medos que me paralisaram, a enorme carência de amor mascarada. Assumo e devolvo-lhe o estratificado em mim. Descobrir o monstro requer integridade interior. O barro dessa taça mistura-se à água. Para aqueles que se perdem nesse combate, a taça deturpa o sabor da água.
Aflora a minha consciência as verdades-externas que absorvi; os delírios sociais que comunguei; os medos e doenças que internalizei. Nada era meu. Fui depósito de crenças. Valores que aprendi e não são meus. Tudo isso foi jogado na minha essência. E, ela, auxiliada pelo meu animal sagrado, tece a fertilidade de minha terra.
Levou tempo. Muitos eclipses ocorreram. Entretanto, por detrás e por baixo desse mundo diário, sob a luz do dia – que me fizeram acreditar ser o único real, existi um outro mundo profundo e denso, cheio de riquezas ocultas e mistérios – que contém meus potenciais a serem desenvolvidos. É nesse lugar macio e primitivo de meu ser que minha essência elabora a transformação. Nele não há relógio digital. Apenas existe a solicitude.
Nesse estado interno, existe o mapa invisível de meu caminho. Tal qual a planta depositada na terra boa. O alimento que absorvo vem desse mundo subterrâneo. Em sua escuridão, aprendo a olhar com os olhos da fé para minha alma. Em sua densidade, despejo os detritos de meus contatos com o mundo. Deixo nela o vírus inimigo. Para que lá seja exorcizado. Quanto mais constritos, mais sofrimentos. Na entrega, reside à sabedoria. Deixar-se moer dá ao grão de trigo a sublime tarefa de alimentar. Viver exige mais do que um moinho para esmigalhar nosso grão. Sentir o Amor, percebê-lo em seu peito, deixa-lo agir, permitir-se ser a taça por onde ele se derrama é a experiência mais enriquecedora. Compreender isso e que Ele (Amor) se instala em nós. E, Ele e não nossa razão que atua, escolhe, faz. A entrega da razão nesse momento significada a humildade em reconhecer que a minha razão não sabe, e reverencia conscientemente essa energia que tudo pode; tudo sabe; tudo vê. Sou o grão de areia e o mar da energia amorosa me penetra limpando, lavando minhas tristezas, meus julgamentos, meus temores até estar pronta para experenciar além de mim, transcender.
Ao colocar a planta no oitavo e último vaso, retorno serena de meus pensamentos. Aterriso transformada nessa realidade externa. Desbloqueei os canais. As folhagens são o único sinal de que viajei para meu interno. Exibem faceiras o gosto de terra nova a abrigar-lhes. A água que se derrama sobre elas desce límpida por entre a terra. Minha taça transborda a água vivificadora da alma. Sinto a energia do Amor agindo movimentando-se em cada átomo do meu ser. Limpa meus pensamentos, aprofunda meu sentir, aprendo nessa energia a acolher e nutrir o melhor em mim e no outro. Meu olhar agora se fixa, potencializa o positivo em mim e no outro. Vejo não mais com meus olhos externos, mas sim com os olhos internos assentados no Amor. Desta forma, nada em mim e no outro é para machucar. Toda a dor é apenas para mostrar a rudeza que precisa ser lapidada em nós. Mostra-nos a espessura da armadura que precisa ser derretida. Através da entrega, aprendo a confiar na energia que sinto.
Desse lugar de onde venho, resta-me uma pergunta: quantos vasos serão precisos experenciar para que o humano em nós possa reencontrar sua fertilidade amorosamente divina?

Sensações

- Sensações -



Da janela de minha alma, um querubin jeitosinho pede permissão para conduzir meu olhar ao lado de fora. A leveza de suas asas conduz meu ser à moldura amendoada de meu corpo. Permito-me o desligar da racionalidade. Confessa-me ser esta a senha para se transitar no altar dos deuses.

Fala-me das possibilidades desse campo de visão, como se fosse presente do Olimpo. Conta-me de seu mundo. De seu lugar sagrado. Seu código é musicalizado pelos sons de um acorde amoroso. Não parece com nada que conheço. A não ser por esta sensação de algo tão meu. Entendo as cócegas que essa linguagem provoca em meus ouvidos. E, a curiosidade da minha visão. Cochicha que em seu mundo as coisas são o que precisam ser. Cada um harmoniza-se com o todo sem delimitações/restrições. Encanta-me com sua simplicidade.

Seu convite é meigo, doce como o olhar de um deus. Para o passeio, impõe suas exigências. Pede o desnudar de máscaras. Encaro a proposta como capricho. Dou-lhe um sorriso e concedo. Manhoso, descobre meus pensamentos. Ri de minha ingenuidade. Brinca comigo. Despir-se é necessário. Fala, agora, de forma austera. Estranho e, ao mesmo tempo, compreendo. Deixo minhas expectativas de lado. Sei que necessito tirar o manto pesado de falsas certezas cotidianas para que o segredo, pelo qual vivo, se irradie em raios luminosos no mundo das sensações. Concedo-me o prazer de sentir sem julgar.

Sente minha alternância de atitude. Passa a me chamar Cristal. Não me surpreendo. Soa conhecido. Desperta algo. Como se invocasse por algum velho Xamã. Sigo. Pousa em meu ombro direito. Aponta-me para o horizonte. Nessa tela de um filme desconhecido, vislumbro matizes, sons, cheiros e uma incrível sensação de paz. Uma transmutação desvela meu ser. Sinto-me quente. Algo, em mim, queima. Chama de um fogo sagrado, transcendente. Meu corpo parece ceder lugar a sensações estrangeiras, torna-se território confiscado por um anjo maroto.

Entre meu ser e aquilo visto por meus olhos, há as sensações mediadoras. Como uma ponte. De um lado, o corpo. No outro, meus olhos. Na extensão, os nervos exibem um abismo de possibilidades. Tão reveladoras quantas as que vê em meus olhos. Minhas sensações. E eu, tola, tento negá-las. Como esconder a quentura da vela? Como disfarçar a chama da alma? Como abafar a sensação do corpo?

Percebo o suave toque das suas asas em meu ombro. Vejo que o anjo continua a invadir meus pensamentos. Não se assusta com o que vê. Não o censuro. Deixo que se instale comodamente na parede de minha memória. Pinte e borde com as cenas que ali vê. Não me importo com a invasão. No trajeto, descobrimos juntos o calabouço: esconderijo de minhas sensações. Lança uma luz a emoções e a desejos esbranquiçados pelo osso translúcido do tempo. Tal qual rebento, descobre trilhas secretas no útero das veias do sentimento, passa a desbravar o território desconhecido de minhas sensações. A verdade dói apenas àqueles que temem se descobrir no entulho de medos armazenados pelo lixo colhido do coletivo. Verdade: caça-jeito. Feito luz lunar assistida por estrelas cadentes de nossos desejos.

A paisagem se transforma. O pôr-do-sol seduz o olhar. Seu tom aquece as estrelas da paixão e cede sua luz ao espelho de sua imagem antagônica. Ao comando dessa, inúmeras partículas se acendem. Distantes, longínquas. Brilham em tonalidades diferentes. Vistas daqui assemelham-se ao brilho de um olhar. As sensações trancafiadas no calabouço pouco a pouco emergem. Instalam-se em meus nervos. Transitam ao sabor dos estímulos nervosos provocados pela visão. O querubim observa os efeitos dessa imagem em mim. Dirige sua atenção às minhas sensações.

Descubro, nessas trilhas abertas pelo anjo, que o caminho já existia. O mundo das sensações só se extingue na ilusão dos racionais. A chave do calabouço, apesar disso, existe para aqueles que se entregam despojadamente a sua verdade. Sentencia que sou responsável por esta redescoberta. Agora, que a trilha foi reencontrada, preciso demarcá-la para novas aventuras.

Suas fronteiras precisam ser conhecidas. E, sua magia: explorada. Com o meu território sagrado desvelado, aponta-me a responsabilidade da conexão entre ele e tudo que existe.

Ah, como é bom desligar-se do real. Ao funcionar no piloto-automático, permitimos o contato com este mundo sagrado das sensações que só os deuses - por não se pensarem - conhecem. Neste lugar aprende-se que as duas dimensões se fundem e coexistem. Queimo o incenso em agradecimento, e retorno a outra tão conhecida realidade.

Ser feliz é sintonizar-se com a alma do Grande Mistério. Requer tão pouco que os mortais desconfiam.
Essas tardes assim....

Hoje o dia iniciou normal. Relogio despertou, 06:15. Banho. Roupa. Café. Escova de dentes. Perfume. Cabelo. Enfim, pedi um taxi. Expliquei da necessidade de informar ao motorista que precisava de troco para vinte reais. Afinal, a corrida dá em torno de R$5,50. Pasmem: o taxi foi pedido 06:50, chegou 07:20. Graças a Deus chegou. Motorista muito educado. Expliquei onde ir. Entretanto, fez o pior caminho. Pra mim. Para ele, levou mais R$4,00. Entendi naquele momento que ali cada um estava olhando a partir do seu umbigo. Eu, querendo chegar logo. Ele, querendo uma corrida mais vantajosa. Poderia ter discutido, criado uma situação.Até porque expliquei por onde ir, E, ele se aproveitou (se isso é possivel) de minha distração com bolsa, celular, material. Fez o caminho que achou mais conveniente. Tudo isso passou em minha mente. Respirei fundo e resolvi assumir a responsabilidade da situação e não permitir que ela ditasse o meu dia, decidi aceitar que era o melhor que podia ter acontecido. Paguei o taxi e contribui com um real para o cafezinho do taxista, pois foi meu jeito de dizer a vida que estava legal. Olhei pro céu, percebi as nuvens o friozinho de outono. De-li-ci-o-so. Preferi essa sensação àquela do taxi. Segui a manhã. Que em um piscar de olhos passou a minha frente. Sem dar chance, de pensar muito. A rotina de um colégio não tem nada de rotina. É "na veia" como dizem meus "anjinhos" (alunos).



Sai do colégio por volta das 12:30, o olhar elevou-se ao céu que entre as nuvens de chuva mostrava um sol timido, mas intenso. Outras atividades aguardavam-me. Um café-almoço. Pessoas adoráveis. Dicas para o blog. Enfim, um bate-papo gostoso daqueles que você quer passar a tarde inteira, mas ... . Conformei-me pois se corria o risco de tomar-um-chá-de-banco, como dizia vovó, á tarde toda, pelo menos estaria acompanhada de alguém com quem tenho afinidades e o papo rola legal.



Perfeito. Ficamos duas horas e meia esperando para nos atenderem. Hehehe. Conversamos. Do trivial ao profundo. E percebi a impaciência das pessoas que esperavam como nós. Os chiliques de alguns por esperar. E me via ali. Calma. Conversando com alguém que admiro, confio, tendo de quebra o céu de Porto Alegre, visto do décimo andar, o vento de outono. De novo, percebi-me optando por ficar com aquela sensação de bem-estar, tendo consciência do mal estar a minha volta. Como disse mais acima, o tempo passou sem sofrimentos. Possibilitou-me um aprofundamento na relação de amizade, um compartilhar de coisas que considero tão significativas entre as pessoas. Quando fomos atendidos, constatamos a objetividade necessária daqueles que estão à frente de funções de comando. Além disso, o quanto somos uma pequena célula frente ao sistema todo. Saindo de lá, fomos ao tradicional lanchinho. E, mais bate-papo.



Ao retornar pra casa, solitária num banco da lotação, olhava pela janela o movimento, as pessoas e novamente o céu. O céu de final de tarde de outono. Lindo! O burburinho dos carros, o cansaço estampado nos rostos das pessoas - e provavelmente no meu - mas o céu continuava ali. Lindo. Encantador. Algumas músicas passaram pela mente. Cheguei a murmurar alguns sons. Encostei-me melhor no banco e fiquei admirando o céu, ouvindo as buzinas, as pessoas. Permite-me apenas sentir.



E, fui invadida por uma letra de música que ouvi tempos atrás do grupo Anjos de Resgate "Invade minha Alma, me ama e me acalma, me cura e me salva, tua intimidade quero conhecer, ... teu corpo, teu sangue me levam pro céu". Percebi aquecer minha Alma. Senti as asas do anjo maroto a envolver-me. Meus pensamentos viajaram no tempo, estacionaram em cenas gravadas com fogo nas paredes da memória, e percebi que o Amor apenas e tão somente É. (e ponto). Você não tem como dizê-lo, descrevê-lo .. enfim. Você Sente! Ele é a combustão, O transformador! Nenhum ser por ele visitado é o mesmo. Ele tem a capacidade de fazer a vida ter realmente cor. Ele toca tudo através de nós e torna tudo sagrado. Invadiu-me uma sensação de céu, de extase tão profundo que as-fichas-caíram e eu reles mortal curvei-me ao imponderável. O AMOR está em nós esperando que a gente dê a chance para que ele nos mostre o quanto absolutamente TUDO nesta vida é obra de sua ação. ABSOLUTAMENTE TUDO!!!



Minha absoluta reverência a esse SER chamado AMOR!! Hoje entendo mais um pouquinho do que São Francisco de Assis quis dizer quando falou aos seus companheiros " Eu AMO o AMOR". Neste dia que tinha tudo pra ser mais um cansativo dia, compreendi mais uma faceta da dádiva de AMAR. EU AMO O AMOR, SIIIIIMMMM! Sou sua eterna aprendiz! E digo SIMMMMM sempre a ele! E peço a Deus que sempre, sempre, sempre me ajude a estar aberta aos aprendizados. Minha gratidão....