" Há algumas flores do amor que abrem só depois de longa intimidade." Osho

Beijo da Escrita


Eu escrevo como quem beija.
Um beijo longo, demorado, carinhoso.
Um beijo desses de língua.
A língua se movimenta lentamente
e me permite um gosto
ao mesmo tempo do outro
e de mim mesma.

Do outro que me encontra
neste texto
e do que há em mim que permite o encontro.


Eu escrevo como quem vive.
Assim, simples,
fazendo um texto de vida,
na vida.
Às vezes, penso,
afinal, que texto é esse que eu produzo?
Que vida é essa agenciada
pelo sabor das palavras compartilhadas,
sussurradas, como um afago?


Quem é esse outro que me encontra
e quem sou esse eu mesma que se expressa,
que se entrega...
nesse delicioso beijo de língua?
Nesse movimento que, afinal,
eu mesma provoco?
O gosto vem do meu movimento mesmo
associado ao movimento do outro.


Quando escrevo, eu me inscrevo.
Fica também o meu gosto
no gosto da língua do outro.
E isso me remete a não querer parar de escrever.Nunca.





quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sensações

- Sensações -



Da janela de minha alma, um querubin jeitosinho pede permissão para conduzir meu olhar ao lado de fora. A leveza de suas asas conduz meu ser à moldura amendoada de meu corpo. Permito-me o desligar da racionalidade. Confessa-me ser esta a senha para se transitar no altar dos deuses.

Fala-me das possibilidades desse campo de visão, como se fosse presente do Olimpo. Conta-me de seu mundo. De seu lugar sagrado. Seu código é musicalizado pelos sons de um acorde amoroso. Não parece com nada que conheço. A não ser por esta sensação de algo tão meu. Entendo as cócegas que essa linguagem provoca em meus ouvidos. E, a curiosidade da minha visão. Cochicha que em seu mundo as coisas são o que precisam ser. Cada um harmoniza-se com o todo sem delimitações/restrições. Encanta-me com sua simplicidade.

Seu convite é meigo, doce como o olhar de um deus. Para o passeio, impõe suas exigências. Pede o desnudar de máscaras. Encaro a proposta como capricho. Dou-lhe um sorriso e concedo. Manhoso, descobre meus pensamentos. Ri de minha ingenuidade. Brinca comigo. Despir-se é necessário. Fala, agora, de forma austera. Estranho e, ao mesmo tempo, compreendo. Deixo minhas expectativas de lado. Sei que necessito tirar o manto pesado de falsas certezas cotidianas para que o segredo, pelo qual vivo, se irradie em raios luminosos no mundo das sensações. Concedo-me o prazer de sentir sem julgar.

Sente minha alternância de atitude. Passa a me chamar Cristal. Não me surpreendo. Soa conhecido. Desperta algo. Como se invocasse por algum velho Xamã. Sigo. Pousa em meu ombro direito. Aponta-me para o horizonte. Nessa tela de um filme desconhecido, vislumbro matizes, sons, cheiros e uma incrível sensação de paz. Uma transmutação desvela meu ser. Sinto-me quente. Algo, em mim, queima. Chama de um fogo sagrado, transcendente. Meu corpo parece ceder lugar a sensações estrangeiras, torna-se território confiscado por um anjo maroto.

Entre meu ser e aquilo visto por meus olhos, há as sensações mediadoras. Como uma ponte. De um lado, o corpo. No outro, meus olhos. Na extensão, os nervos exibem um abismo de possibilidades. Tão reveladoras quantas as que vê em meus olhos. Minhas sensações. E eu, tola, tento negá-las. Como esconder a quentura da vela? Como disfarçar a chama da alma? Como abafar a sensação do corpo?

Percebo o suave toque das suas asas em meu ombro. Vejo que o anjo continua a invadir meus pensamentos. Não se assusta com o que vê. Não o censuro. Deixo que se instale comodamente na parede de minha memória. Pinte e borde com as cenas que ali vê. Não me importo com a invasão. No trajeto, descobrimos juntos o calabouço: esconderijo de minhas sensações. Lança uma luz a emoções e a desejos esbranquiçados pelo osso translúcido do tempo. Tal qual rebento, descobre trilhas secretas no útero das veias do sentimento, passa a desbravar o território desconhecido de minhas sensações. A verdade dói apenas àqueles que temem se descobrir no entulho de medos armazenados pelo lixo colhido do coletivo. Verdade: caça-jeito. Feito luz lunar assistida por estrelas cadentes de nossos desejos.

A paisagem se transforma. O pôr-do-sol seduz o olhar. Seu tom aquece as estrelas da paixão e cede sua luz ao espelho de sua imagem antagônica. Ao comando dessa, inúmeras partículas se acendem. Distantes, longínquas. Brilham em tonalidades diferentes. Vistas daqui assemelham-se ao brilho de um olhar. As sensações trancafiadas no calabouço pouco a pouco emergem. Instalam-se em meus nervos. Transitam ao sabor dos estímulos nervosos provocados pela visão. O querubim observa os efeitos dessa imagem em mim. Dirige sua atenção às minhas sensações.

Descubro, nessas trilhas abertas pelo anjo, que o caminho já existia. O mundo das sensações só se extingue na ilusão dos racionais. A chave do calabouço, apesar disso, existe para aqueles que se entregam despojadamente a sua verdade. Sentencia que sou responsável por esta redescoberta. Agora, que a trilha foi reencontrada, preciso demarcá-la para novas aventuras.

Suas fronteiras precisam ser conhecidas. E, sua magia: explorada. Com o meu território sagrado desvelado, aponta-me a responsabilidade da conexão entre ele e tudo que existe.

Ah, como é bom desligar-se do real. Ao funcionar no piloto-automático, permitimos o contato com este mundo sagrado das sensações que só os deuses - por não se pensarem - conhecem. Neste lugar aprende-se que as duas dimensões se fundem e coexistem. Queimo o incenso em agradecimento, e retorno a outra tão conhecida realidade.

Ser feliz é sintonizar-se com a alma do Grande Mistério. Requer tão pouco que os mortais desconfiam.

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